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domingo, 19 de junho de 2016

Porque não há diálogo, até quando?

(O choupo negro foi abatido durante a noite e as razões para este abate nunca foram apresentadas)


Carta aberta ao Presidente e aos Vereadores da CML

Lágrimas vagarosas e espessas.

Não há uma árvore igual a outra árvore, alguém disse num tempo longínquo. O choupo negro, (Populus nigra), que ontem foi abatido, permite-nos interrogar sobre o significado e o valor que damos à vida, à hierarquia de importância da sua diversidade e a dignidade e respeito que nos devem merecer todos os seres vivos, nomeadamente as árvores de cuja existência dependemos.

Um choupo negro tem uma idade média de 100 anos; o da Avenida Fontes Pereira de Melo, teria cerca de 50 anos. Assistiu à revolta estudantil contra o Estado Novo, às visitas do Papa Paulo VI e João Paulo II a Portugal, às grandes cheias da região de Lisboa que causaram cerca de 500 mortos e deixaram milhares de pessoas sem abrigo, à Revolução dos Cravos que depôs a ditadura e deu Início à 3.ª República. Para não falar dos milhares de pensamentos, afectos e vozes que, na a sua presença e beleza nos ajudou a viver em momentos felizes ou difíceis.

Se houvesse por parte de quem nos governa, mais conhecimento e sensibilidade humanas, nunca teria sido abatido.

Se houvesse por parte de quem nos governa, mais Pólis, os cidadãos seriam ouvidos de outra forma, dialogando, pensando em conjunto soluções alternativas, num exercício de verdadeira e legítima cidadania, com base nos pressupostos acima mencionados.

Foi com base na relação ética/estética, que, por exemplo, os arquitectos paisagistas que desenharam os Jardins da Fundação Gulbenkian intervieram naquela paisagem: conceberam-na à volta de um monumental eucalipto que foi preservado, porque ele era o mais antigo ser representante de um lugar e de uma história que deveria ser contada, permitindo assim que as diferentes camadas de vida, tempo, história e beleza pudessem coexistir transmitindo-nos pelo seu saber, o entendendimento do significado da vida, a sua beleza e princípios éticos, ou seja, a sua verticalidade.

Se houvesse por parte de quem nos governa mais cultura humanística, as imagens 3D, não-lugares, que se transpõem do computador para a paisagem urbana, desprovidas de passado, presente e também de futuro, numa estética vazia, sem densidade e valores humanos - uma estética horizontal, sem ética nem valores, este choupo negro nunca teria de ser sacrificado. O projecto paisagístico, teria contemplado estes seres que nos humanizam e dado aos cidadãos o seu verdadeiro estatuto, ou seja que a cidade não deve ser pensada para os consumidores, mas para os cidadãos. E com eles deve ser construída. Teria sido possível uma experiência de democracia com os valores da República, que com a sua implementação, criou o Dia Nacional da Árvore.

Lágrimas vagarosas e espessas, pela morte deste choupo negro.

Até quando?

Manuela Correia